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MATÉRIAS
CARNAROCK 2001 Festival de rock sacode o
carnaval de Brasília
Enquanto parte do Brasil comemorava o carnaval misturando
samba com Um Tapinha Não Dói, Brasília mostrava como se faz
um festival de rock realmente organizado, coisa de primeiro mundo
mesmo. A convite de produção, a Rock Brigade esteve lá para conferir
tudo de perto. Som e luzes de primeira, seguranças bem orientados e
pontualidade britânica para o início dos shows foram as
características principais do Carnarock 2001, que aconteceu nos dias
24 e 25 de fevereiro de 2001, no Camping Show de Brasília, com 22
bandas de rock’n’roll, metal e hardcore.
A
primeira coisa que impressionou foi o local, uma área de camping
aberta que recebeu um fantástico público de seis mil pessoas em cada
dia. Os shows aconteciam em uma tenda principal, que era cercada de
uma extensa área verde e pequenas tendas que vendiam bebidas,
lanches e merchandising underground. Havia ainda um posto da Cruz
Vermelha para atender os casos de emergência. Outro ponto que merece
menção: as pessoas que quisessem ingerir bebidas alcóolicas
precisavam usar uma pulseira, que recebiam na entrada após se
identificarem como maiores de idade. Nota 10 pra
iniciativa!
E foi
nesse clima de segurança e paz woodstockiana que os shows começaram
pontualmente às 15h do sábado, dia 24/2, com o grupo Chorus, que fez
uma apresentação de meia hora, seguido pelo Mental Asylum.
Interessante notar outro esforço louvável da produção: o intervalo
entre os shows dificilmente passavam de 10 minutos. E foi assim que,
por volta das 16h30, subiu ao palco a primeira banda que colocou
literalmente todo mundo para pular, o Optical Faze. A platéia fez
uma roda de poga muito interessante, que corria em círculos, sendo
que a parte central da roda era composta por pessoas agitando sem
sair do lugar. O Optical Faze esbanjou energia e fez um show muito
interessante.
Em
seguida entrou o Undersiege, com duetos de guitarra bem Iron Maiden,
excelente cantor e uma certa tendência prog metal. No meio da
apresentação, desabou uma chuva torrencial que quase comprometeu a
continuação do festival. O Undersiege fechou com um cover do Deep
Purple e deixou o público calibrado para receber o thrash metal
vigoroso do Ophidium, que também fez uma apresentação de respeito. O
ritmo acelerado e o vocal forte conquistaram a platéia, que lotava a
tenda do evento para ouvir o som e escapar da chuva.
Começara a anoitecer quando o Last Rites subiu ao palco,
praticando um excelente heavy/hard clássico, competente, com alguma
inspiração em Maiden (principalmente no início de algumas músicas).
O grupo fechou seu show com cover do Purple, deixando um clima
perfeito para o Elffus, veterana banda oitentista que faz um heavy
tradicional cantado em português. Os caras detonaram, fizeram uma
apresentação empolgante, lembrando muito Harppia e Centúrias nos
anos 80. mandaram ver também uma versão impecável para um clássico
de Ozzy Osbourne. O Ellfus foi seguido pelo Kábula, que fez uma
apresentação de cerca de 40 minutos, igualmente bem recebida pela
galera.
Já eram
quase 21h quando os toscos veteranos do hardcore candandango do
grupo A.R.D. subiram ao palco. Os caras discutiram com o técnico de
som ao microfone, o guitarrista jogou a guitarra no público e os
músicos pareciam desencontrados em todas a músicas. Um show assim
deve ser horrível, não? Pelo contrário, caro leitor, muito pelo
contrário. O A.R.D. fez um puta show de hardcore empolgante, com
energia hecatômbica, ainda que desencontrada. Os véios sabem como
provocar a platéia e se divertir no palco.
Eram
quase 22h quando o Deceivers entrou, praticando um nu metal (esse
termo é menos queimado do que alterna metal) de qualidade, com ótimo
trabalho de guitarras, riffs muito pesados. É porrada pura, com
muitos elementos do hardcore nova-iorquino. Para fechar a noite veio
o experiente Narcose, esbanjando profissionalismo. Heavy metal
clássico, com ótimo trabalho da cozinha e um vocalista de
primeiríssima classe. Uma ótima banda para encerrar a primeira
noite.
No
domingão de carnaval, dia 25, a chuva parecia ter resolvido dar uma
trégua. Bem, mas isso só durou nas apresentações das duas primeiras
bandas, 10zero4 e Marrapo, pois, por volta das 16h30, ela voltou com
mais força ainda do que no dia anterior. E foi justamente na hora do
set do Flesh In Nails que o céu desabou, mas a banda soube
aproveitar justamente aquele momento para fazer o público agitar
como nunca. O pula-pula correu solto e os dois vocalistas souberam
levar a galera muito bem.
Em
seguida veio o Seconds Of Noise, hardcore bruto, cru e direto, na
escola d’Os Cabeloduro. O show dos caras foi muito legal, empolgante
mesmo, com destaque para a sensacional Pequenas Igrejas, Grandes
Negócios, uma “homenagem” ao padre Marcelo Rossi. Com músicas
bem curtas, tocaram também covers do Brujeria, Sepultura, Olho Seco
e, acredite se quiser, Falcão. A atração seguinte foi o Mata-Leão,
que segue rigorosamente a linha Rage Against The Machine, chegando
mesmo a fazer um cover da banda norte-americana. Vale destacar a
atuação do baixista e a agressividade precisa do vocalista, que não
apela para a gritaria gratuita. Excelente banda.
O
Underskin Crawler veio na sequência baixando a porrada sem dó nem
piedade. O trabalho do conjunto é muito pesado, o vocalista tem um
timbre poderoso, porém, fica evidente a falta que faz uma segunda
guitarra na banda. De qualquer modo, as composições próprias da
banda são muito boas e, de quebra, ainda detonaram um clássico
oitentista do Anthrax.
A
seriedade do Underskin Crawler contrastou com o escracho do
Macakongs 2099, que tem em sua formação o Phú (D.F.C.). O som é bem
na linha S.O.D., inclusive nas ironias. Os caras entraram com
máscaras do Ferrugem (sim, o velho humorista com cara de criança),
tocando um clássico do Twisted Sister. Entre um hardcore e outro,
mandaram ver um Bonde do Tigrão e tiveram sua noite de Carlinhos
Brown: voaram garrafas de todos os lados. Depois do show, Phú se
disse satisfeito com a reação do público à provocação “bem ao estilo
Dead Kennedys.”
A banda
seguinte foi um show de competência. O Slug entrou esbanjando
influências de Metallica antigo — tocaram até um cover da banda de
James Hetfield, tendo como convidado o vocalista Gustavo,
ex-Restless. Os caras são realmente muito bons, fizeram um show
preciso e extremamente profissional, com destaque para a ótima
Fight Against Myself.
Em
seguida, entrou a barulheira deliciosa do Backstroke, com seu som
meio desconexo, totalmente anárquico. Ronan (ex-P.U.S.) subiu para
cantar uma música do Slayer, enquanto Gustavo (ex-Restless), mandou
ver num Judas Priest.
A
próxima atração era uma das mais esperadas: Dark Avenger. Corria um
boato que o cantor Mário Linhares estava perdendo a voz, que a banda
nova era muito fraquinha e coisas do tipo. Pois o que vimos ali foi
exatamente o contrário! Linhares continua entre os melhores (senão o
melhor) vocalistas de heavy metal do Brasil. Além de sua voz estar
mais madura e afiada do que nunca, o cara continua sendo um frontman
de primeiríssima linha, que sabe instigar o público com carisma
único. Não interessa os problemas que estão acontecedo fora do
palco, pois quando a banda começa a tocar, faz um show de nível
internacional. Fecharam com a já clássica Morgana.
A outra
banda que se apresentaria era o Abhorrent, mas um acidente com um
dos integrantes impediu o show do conjunto. Para não deixar o
público na mão, foi improvisado uma jam com alguns integrantes do
Iron Maiden Cover, que encerraram o festival tocando clásicos da
Donzela de Ferro.
O saldo
do Carnarock foi o melhor possível: bons shows, organização
impecável e cerca de seis mil rockeiros satisfeitos em cada dia.
Parabéns à Samara Produções pelo excelente trabalho.
Texto:
Fernando Souza Filho Artigo publicado na Rock Brigade edição 176 (março/2001) |