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ENTREVISTA
BANDA SLUG
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Difícil pensar em uma
situação de roubo pior do que essa. O caso nem foi
de morte. Mas o assalto que levou o computador de
Carlos André Cascelli, de 33 anos, vocal e
guitarra, líder da banda brasiliense de rock
pesado Slug, quase assassinou o terceiro álbum do
grupo. Caso resolvido na base de novo fôlego
criativo, lançam “Not for sale“, sucessor da
estréia com “Shattered“, de 1997, e “Points of
view“, de 2002.
Formado por Carlos,
Guilherme M. Negrão na guitarra, Gustavo Parolin
no baixo e Ricardo Coura na batera, o Slug mostra
que, aos poucos, livra-se do estigma da semelhança
com o Metallica, influência assumida, e constrói
personalidade própria. Até a estética mudou. De
cabelos cortados - exceto os longos cachos do
batera -, eles não fazem tipo. São bacanas,
simpáticos, alegres e sem marra típica da
vertente, como vocês podem conferir na entrevista
fornecida por e-mail. Tudo isso, claro, embalado
em altos solos de guitarra.
- Quem
responde e idade... Slug: Carlos André
Cascelli (voz e guitarra - 33 anos)
ELETRO - Como foi o processo de
produção? quanto tempo durou?
Slug: O disco foi gravado
ao vivo, ou seja, os quatro da banda tocando
juntos no estúdio, em praticamente 2 dias. Mas pra
que isso fosse possível a produção começou bem
antes, com ensaios constantes e pré-produção. Até
que o processo todo fosse finalizado passou-se 1
ano entre pré-produção, gravação, mixagem e
masterização. Essa é uma filosofia que adotamos
desde o princípio da banda.: se é pra fazer, que
seja o melhor possível. E às vezes isso leva algum
tempo.
ELETRO - Houve algum
problema durante a gravação do disco? Parece que
um dos integrantes teve problemas familiares,
certo? Contem o que ocorreu e como isso afetou no
disco?
Slug: Na
verdade o pai do baixista, Gustavo Parolin,
faleceu na etapa final, quando o disco já estava
praticamente pronto. No encarte a gente dedicou o
disco à memória dele. Um dos maiores problemas que
enfrentamos durante o processo de produção foi a
gravação de vozes. Eu deixei para escrever as
letras perto da hora de gravar pra que a coisa
toda surgisse de forma bem espontânea e atual.
Dias antes da gravação o meu computador foi
roubado com vários rascunhos e letras finalizadas
dentro. Tive que reescrever várias das letras do
disco em poucos dias.
ELETRO -
Esse disco tem um significado especial para vocês?
Simboliza que momento da banda?
Slug: Nós já
temos dois discos e um “single” lançados que foram
muito bem sucedidos e levaram o nosso som a várias
partes do Brasil e do mundo. Vivenciamos várias
experiências que todo moleque que monta uma banda
gostaria de vivenciar. Não temos mais aquela
necessidade de reconhecimento a qualquer custo.
Não faz mais sentido gravarmos um disco só por
gravar. “Not for Sale” é o resultado de uma
necessidade nossa de fazermos um disco que fosse
não só reconhecido, mas respeitado em todos os
aspectos, desde as composições, a execução, até a
gravação e o projeto gráfico.
ELETRO - Porque “Not for Sale”
(não está à venda)? É algum recado que vocês
querem dar diante de alguma situação que aconteceu
com vocês?
Slug:
É engraçado porque o pessoal da gravadora
GRV Discos deve ter ficado maluco com o
título do disco mas apoiou a nossa decisão 100%.
Na verdade “Not for Sale” é a música que dá título
ao disco e fala basicamente sobre integridade
musical. Já aconteceram algumas situações ao longo
da nossa carreira que nos motivaram a escrever
sobre isso. Um bom exemplo foi o de uma gravadora
grande que nos ofereceu um contrato desde que
aceitássemos nos vestir de maneira como eles
gostariam e nos livrássemos de um dos integrantes
que não correspondia ao perfil que desejavam.
ELETRO - A pergunta básica: porque
em inglês? Será que já não daria para compor em
português com todo o reconhecimento e respeito que
vocês conquistaram? Há planos em relação a
isso?
Slug: Pra
ser bem sincero, a maioria das bandas que nos
influenciaram são bandas de fora. Existem bandas
que nos criticam e cantam em português mas se
vestem como se fossem gringos, dos pés a cabeça.
Isso é hipocrisia. O fato de compor em inglês não
nos impediu de tocar várias músicas de bandas
brasileiras que a gente respeita em nossos shows.
Mas nunca escrevemos ou gravamos nada em português
ainda.
ELETRO - Essa estética em
inglês até na capa nitidamente procura um caminho
no exterior. As pessoas não estranham brasileiros
cantando nessa língua? ainda há essa intenção de
buscar caminhos lá fora?
Slug: Na verdade esse
estranhamento de certa forma até ajuda. As pessoas
ficam sempre curiosas quando se fala de uma banda
brasileira compondo em inglês. A verdade é meio
clichê mesmo: pra esse tipo de som que fazemos o
mercado exterior é bem mais promissor. Lá, a coisa
é realmente levada a sério. Uma grande parte do
mercado da música lá fora é voltado pra o som mais
pesado. Quanto à estética, o SLUG sempre buscou
uma identidade própria que fugisse dos clichês do
gênero, mesmo que isso nos custasse uma perda de
popularidade com os fãs mais radicais. Nós nunca
fizemos aquele papel de banda que levanta a
bandeira de um gênero musical e o defende até a
morte. Nossos discos não estão recheados de
caveirinhas e diabinhos ou coisas estigmatizadas
que as pessoas esperam de bandas que fazem um som
mais pesado. Nós não somos revoltados com tudo e
com todos. Nós fazemos um som pesado porque
gostamos e nos divertimos.
ELETRO
- A produção ficou a cargo de um integrante da
banda (Guilherme Negrão). Vocês não pensam em
procurar um produtor fora?
Slug: É claro
que a possibilidade existe. Mas o Guilherme M.
Negrão, nosso guitarrista, desenvolveu a
capacidade técnica que nos possibilitou gravar com
igualdade de condições com qualquer banda daqui e
de fora. A grande vantagem é que ele, como membro
da banda, entende exatamente o direcionamento do
trabalho e conhece a capacidade de cada músico e
como explorá-las.
ELETRO - Porque
“Alone”, lançada no maxisingle, retorna agora
nesse novo disco?
Slug: “Alone” foi um dos
maiores, senão o maior sucesso nosso até agora.
Queríamos fazer um vídeo clip da música para
incluí-lo como faixa multimídia no CD. Portanto
decidimos regravá-la para o clip e para o disco
novo com um arranjo mais atual e elaborado.
ELETRO - A comparação ao Metallica
é inevitável. Como vocês se sentem em relação a
isso? É algo que incomoda?
Slug: No começo
até ajudava, afinal estávamos sendo comparados a
uma das grandes bandas do gênero e as pessoas
ficavam curiosas. Depois isso virou uma
preocupação. Queríamos que as pessoas nos
respeitassem pelo que fazíamos e não por achar que
parecíamos com o Metallica. Quantas e quantas
bandas não tem um vocalista com timbre de voz
parecido com o do cara do Sepultura, ou do Pantera
ou de várias outras bandas conhecidas, e ninguém
faz a comparação? Mas o Metallica é uma referência
muito forte e as pessoas tem essa tendência em
achar um parâmetro para caracterizar o som de uma
banda. Nós buscamos cada vez mais sermos
respeitados como banda, e temos a consciência de
que nunca conseguiríamos chegar aonde chegamos
tentando copiar outra banda.
Obs - Alguns
trechos dessa entrevista foram utilizados em
matéria para o jornal Correio
Brasiliense.
Daniela Paiva é
jornalista, brasiliense, formada há quatro anos,
integra a equipe de Cultura do Correio
Braziliense. Escreve sobre música, turismo de vez
em quando, e culinária em uma coluna semanal às
sextas-feiras. Anteriormente trabalhou, por dois
anos, na ANDI - Agência de Notícias dos Direitos
da Infância, além da extinta Revista do Porão do
rock. Acima de tudo é apaixonada por histórias, e
as compartilha tanto nas linhas de texto quanto na
vida. | |
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